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Se as pressões, opressões, injustiças e ataques impiedosos aos quais somos expostos servem de meio para nos voltarmos a Allah com todo o nosso ser, então, mesmo que aparentemente pareça que estamos perdendo, na realidade estamos ganhando. Em comparação com a vida eterna, que importância podem ter as perdas e ganhos desta curtíssima vida mundana?
Às vezes, o outro mundo nos parece muito distante. No entanto não restou nada das muitas pessoas que ontem estavam entre nós, circulando ao nosso redor, sequer uma sombra. Elas agora habitam aquele lugar que nos parece tão distante. Um dia, nós também nos juntaremos a elas. Outra forma de negligência nossa é pensar que a vida neste mundo nunca vai acabar. Porém, o Alcorão informa que, quando formos para o além e nos perguntarem quanto tempo permanecemos neste mundo, responderemos: “Um dia, ou nem sequer um dia inteiro, mas menos do que isso!”
Quando nos abrirmos para um mundo além do tempo, veremos como a vida que passamos neste mundo se tornará cada vez menor aos nossos olhos. Além de nos, os opressores que mergulharam neste mundo como se fossem permanecer nele eternamente e a ele se apegaram como se o adorassem, também verão isso. Quando eles compreenderem quão insignificante é o mundo em comparação com a outra vida, se contorcerão com tamanha dor, até talvez vocês sintam a pena da situação deles. Quando você vir, lá, como aqueles opressores — que neste mundo destruíram milhares de famílias, separaram mães de seus filhos e filhos de suas mães, e atacaram os bens, as vidas e a honra das pessoas — gemem de arrependimento, também caberá a você sentir pena deles. Portanto, é muito importante ir para a outra vida como alguém que tem créditos a receber. Sim, o essencial é não se deixar enganar pelos sucessos e ganhos temporários deste mundo, mas dar passos que garantam a vida eterna e demonstrar uma postura firme.
O (Poeta) Ziya Paşa (falecido em 1880) diz de forma belíssima:
“Convém a fidelidade ao ser humano, mesmo que veja repulsa,
O Auxiliador dos justos é o Altíssimo Allah.”
Como resultado das pressões às quais somos expostos, podemos ter dificuldades e sentir-se angustiados. Por causa de alguns opressores que se apegam ao mundo, podemos passar por apertos severos, ser destruídos por uma força esmagadora, sofrer calúnias e ser vítimas de injustiças. Apesar de toda a sua vastidão, o mundo pode parecer estreito demais para nós. Contudo, se conseguimos enfrentar todas essas dificuldades com paciência e confiança em Allah, isso significa que estamos no caminho da vitória. O Altíssimo Allah, ao falar sobre o Profeta Ayyub (Jó), diz: “Em verdade, ele era dos que mais suportavam com paciência” e, logo em seguida, o enaltece com a expressão نِعْمَ الْعَبْدُ, “Que excelente servo!”. Ele alcançou esse grau por cerrar os dentes e perseverar com paciência diante das inúmeras provações que enfrentou. Se você também deseja ser agraciado com a aprovação de Allah, deve esforçar-se para ser um herói da paciência como o Profeta Ayyub.
Bênção Na Medida Da Dificuldade
Além disso, não se deve esquecer que quanto maiores forem as dificuldades enfrentadas, maiores serão os ganhos obtidos na mesma proporção. De fato, diz-se: بِقَدْرِ الْكَدِّ تُكْتَسَبُ الْمَعَالِي, ou seja, “os altos postos são alcançados na medida do esforço e da dificuldade suportados”. Quanto mais dor vocês sofrem e por quantos barris de prego vocês passam, nessa mesma medida alcançará valores superiores aos valores, diante da Divindade.
Os esforços do Profeta Nuh (Noé), ao longo de muitos anos, para transmitir a verdade e a realidade ao seu povo, foram sempre recebidos com zombaria e insultos; porém, no final do caminho, o vencedor foi ele. Por isso, esse nobre profeta é hoje lembrado como “Najiullah” (o protegido de Allah). O Profeta Ibrahim (Abraão), após ser lançado ao fogo, foi honrado com o título de “Halilullah” (o amigo íntimo de Allah) devido a sua fidelidade. O Profeta Musa (Moisés) sofreu tormentos e perseguições inúmeros por parte do Faraó; contudo, por outro lado, foi escolhido por Allah como Seu interlocutor e passou a ser conhecido pelo nome “Kelîmullah”, que significa “aquele que falou com Allah”. O Profeta Isa (Jesus) foi seguido passo a passo pelos malfeitores de sua época, chegaram a preparar cruzes para ele; porém, em contrapartida, foi honrado com o nome “Ruhullah” (o Espírito de Allah) e elevado à presença de Allah. Os idólatras de Meca, com seus ataques implacáveis, não deram descanso algum ao Orgulho da Humanidade, o Profeta Muhammad (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele). Em contrapartida, o Altíssimo Allah o conduziu, em sua jornada do Mi‘raj (Assenção), com seu corpo luminoso como uma estrela, pelos mundos do além.
Desde o Profeta Adão, não houve um único profeta que não tenha sofrido nas mãos de seu próprio povo. Eles tinham apenas uma preocupação e uma única causa: chamar as pessoas para Allah e transmitir aos corações os mistérios da divindade e da soberania divina — e isso sem esperar nada em troca. Embora esses esforços merecessem enorme gratidão e reconhecimento ilimitado, a realidade não foi assim. Pelo contrário, eles foram ridicularizados pelos opressores sem pudor de suas épocas, sofreram todo tipo de tormento e foram forçados a abandonar suas terras e lares. Chegaram até a serrar o Profeta Zakariyya (Zacarias) ao meio; e, além disso, martirizaram também seu filho, o Profeta Yahya (João Batista). Se as provações que eles suportaram tivessem recaído uma sociedade inteira, teriam sido suficientes para esmagá-la completamente. Allah submeteu Seus servos mais amados às provações mais severas e, como resultado de eles honrarem plenamente essas provas, os distinguiu com os mais elevados graus.
Se vocês estão no caminho dos profetas, as provações que recaíram sobre eles também podem recair sobre vocês. Pois, conforme o Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) afirmou em seus hadíces, as maiores provações foram suportadas pelos profetas e, depois deles, por aqueles que lhes são mais próximos. Sobre aqueles que caminham na senda da verdade, há promessas tão grandiosas de Allah e de Seu Mensageiro que, mesmo que o mundo inteiro nos seja tirado das mãos, não vale a pena sequer demonstrar tristeza. Porque fomos criados para a eternidade. Nada, além da eternidade e do Ser Eterno, é capaz de nos satisfazer. Diante da eternidade, não desejaríamos nem mesmo uma vida mundana de mil ou dois mil anos. Além disso, nunca fomos apegados ao este mundo para que, ao perdê-lo, sentíssemos a dor do fracasso e da separação. Allah (Exaltado seja em Sua majestade), por meio de acontecimentos de aparência amarga e de golpes de misericórdia, afasta-nos deste mundo passageiro que não almejamos e nos direciona para o lugar que realmente deve ser desejado.
Este é o caminho que se percorre. Se vocês entraram nele conscientemente, terão de suportar. Graças a Allah, até hoje não vi ninguém que tenha entrado nesse caminho e depois se arrependido. Por isso, não se pode apresentar o caminho do serviço a Allah como algo amargo àqueles que sabem até mesmo saborear as calamidades como uma bebida doce. Pois eles já provaram desse caminho uma vez e sentiram seu sabor e não o abandonam. Esse prazer os deixou tão extasiados que, como disse Poeta Gedaî, eles dizem:
“Aquele que bebe dessa água, de imediato
Vê nascer no coração o sol do mundo;
Ela concede a vida eterna.
Quanto mais tomo mais o desejo, dá-me dessa água!”
“Olha o estado deste pobre servo:
Escravo da sua beleza ficou;
Mergulhou o dedo no mel do amor,
Quanto mais mergulho, mais o desejo — dá-me dessa água!”
Aqueles acomodados que nunca sofreram sequer o equivalente à picada de um mosquito no caminho de Allah, são incapazes de compreender essas realidades. Nem eles conseguem sentir o sabor do serviço prestado à fé e ao Alcorão, nem compreender através de quais dores e sofrimentos vividos para a clara religião do Islã chegue até nós.
Os Que Sofrem E Os Que Fazem Sofrer
Onde quer que haja pessoas anunciando a verdade e a realidade, sempre houve, diante delas, os tiranos, os desviados e os condenados à perdição. Onde quer que existam almas devotadas tentando abrir os olhos das pessoas para a verdade por meio do conhecimento e da sabedoria, sempre existiram também infelizes que, com o poder e os recursos que possuem, tentam silenciar suas vozes. Em todas as épocas existiram certos centros de corrupção, produzindo ideias demoníacas — se é que isso pode ser chamado de ideia. Esses grupos enganam grandes massas por meio da demagogia, da propaganda e de métodos maquiavélicos.
Além deles, nunca faltaram os “demônios mudos” e os bajuladores, incapazes de erguer a voz sequer com duas palavras contra as injustiças cometidas pelos opressores. Eles aplaudiram os opressores que tentavam retratar pessoas angelicais como se fossem demônios e se esforçaram para apresentar as injustiças dos tiranos como razoáveis, legítimas e legais. Mas Allah vê tudo, e os nobres anjos registradores (Kirâmen Kâtibîn) escrevem tudo. Quando entrarem no túmulo, tudo ficará claro; e então distinguirão o branco do preto e enfrentarão essa realidade.
Em resumo, desde sempre nunca faltaram nem os que sofrem, nem os que fazem sofrer. Os tiranos intoxicados pelo poder fizeram outros sofrerem neste mundo, mas com suas ações destruíram o seu próprio além. Quando forem para o outro lado, buscarão consolo com gritos de arrependimento “ya leytenî, ya leytenî” (“Oh, quisera que eu fosse …!”), mas se arrepender lá não trarão benefício algum. Já aqueles que sofreram neste mundo, por meio das provações e calamidades que enfrentaram, elevaram-se aos mais altos graus de perfeição.
Sob essa perspectiva, não se deve sucumbir ao desespero nem se deixar abater diante das calamidades enfrentadas. Com a permissão e a graça de Allah, ao final do caminho, aqueles que não desviam de sua linha, que perseveram e permanecem firmes sairão vencedores. Esse desfecho, que parece distante, na verdade está tão próximo que é como se estivesse bem diante dos nossos olhos.
Não se esqueçam de que as opressões vividas são apenas um eclipse; pois não se pode encobrir o sol para sempre. Quando chegar o tempo determinado e a vontade sublime se manifestar nessa direção, esse eclipse também desaparecerá, e o sol, mais cedo ou mais tarde, continuará a irradiar sua luz. O principal, porém, é observar se não há um eclipse entre o seu coração e o Ser da Divindade. Não se esqueçam de que o maior eclipse é aquele vivido em relação ao Sol dos Sóis e à Lua Luminosíssima.
Diante de tanta agressividade e brutalidade, é natural que sintamos tristeza. Os chutes e bofetadas que recebemos podem causar abalos em nós, afinal, somos humanos. Até mesmo um enorme plátano, ao receber um golpe, tem seus galhos e folhas estremecidos.
O importante é permanecer firme no lugar em que se estamos, sem perder a esperança e a expectativa, e continuar fazendo, dentro das condições existentes, aquilo que está ao alcance das nossas forças. É conseguir continuar, sem ferir ninguém — nem o amigo nem o fio do cabelo do amado — a bordar constantemente o delicado rendado do nosso ideal coletivo. Tudo aquilo que ontem fazíamos para agradar ao Altíssimo Allah e ao Espírito do Senhor da Humanidade, não devemos deixar de fazê-lo também hoje.
O Inverno Será Seguido Pela Primavera
Por outro lado, se conseguirmos manter nossa postura, as dificuldades que vivemos fortalecerão nosso sistema imunológico, nos impulsionarão a desenvolver novas estratégias e colocarão novas oportunidades diante de nós. Os tratamentos desumanos praticados contra vocês despertarão nos outros um sentimento de curiosidade em relação a vocês e farão com que sejam observados de perto. Tentarão analisar vocês nem um médico analisa o pulso e observa o ritmo do coração. E se vocês souberem aproveitar bem essa curiosidade universal para se expressarem, mantendo a postura e mostrando que o ritmo não está descompassado e que o pulso bate regularmente, quem sabe as obras realizadas em nome do serviço a Allah se tornem um objetivo mundial e a boa-nova anunciada pelo Mensageiro de Allah (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) se concretize.
Em resumo, mesmo que inundações tomem todos os lados, que os caminhos por onde andamos se tornem intransitáveis e que montanhas escarpadas se ergam à nossa frente, somos obrigados a encontrar caminhos e métodos alternativos para seguir em direção ao nosso objetivo. Porque o nosso Guia Perfeito (que a paz e as bênçãos estejam sobre ele) agiu exatamente assim. Se aquilo que ele suportou tivesse recaído sobre montanhas, elas teriam sido despedaçadas. Contudo, não sei de nenhuma vez em que ele tenha sequer dito “uf”. Quando os habitantes de Meca não o escutaram, ele buscou alternativas e tentou fazer sua voz ser ouvida em Taif, na Abissínia e em Medina. Quando foi expulso por uma porta, bateu à aldrava de outra; nunca parou. Embora seus esforços para transmitir a verdade e a realidade tenham sido recebidos com reações brutais, em seu coração não havia ódio contra ninguém. Por isso, ele continuou a buscar, com amor e compaixão, corações dispostos a se familiarizar com a verdade.
Desde o Profeta Adão, os acontecimentos, ainda que não exatamente iguais, ocorreram de forma semelhante. Allah fez os dias se alternarem entre as pessoas. Toda noite tem o seu dia, e todo inverno tem a sua primavera. E de repente, podemos ver que todas as adversidades terminaram e uma nova primavera chegou. Sob essa perspectiva, não se deve cair no desânimo só porque tudo está coberto de neve e gelo, pois sempre foram seguidos por novas primaveras. Mesmo que todas as bocas pessimistas se juntem formando um grande coro e digam que não permitirão a chegada da primavera, o Poder Dominante, com Sua vontade sublime, lhes dará uma bofetada e, ainda assim, trará a primavera. Depois da primavera virá o verão; as rosas florescerão e os rouxinóis cantarão, com a permissão e a graça de Allah. Então, os morcegos retornarão às suas tocas, e as pegas, conhecendo seus limites, descerão dos galhos das rosas e se recolherão aos seus cantos.
O poder de Allah é suficiente para todas as coisas. Vamos encerrar nossas palavras com a Tevfiznâme de Erzurumlu İbrahim Hakkı (falecido em 1780):
“Torna toda tarefa fácil quando se manifesta a Verdade;
Cria os meios e os concede como dádiva, num só instante,”
